Vantagens da Diversidade Humana

Também na História da Psicologia se encontram muitos exemplos de desrespeito pela diversidade. Mais ainda, a psicologia, enquanto disciplina de saber, participou na construção social das categorias de diferença, como o género, na idade, a etnia, a classe social, a orientação sexual, etc., muitas vezes racionalizando e legitimando as conceções dominantes e dominadoras de determinados grupos com mais poder e visibilidade.

Tais formas de desrespeito e de dominação incluíram (e, infelizmente, algumas vezes incluem ainda) a construção de teorias onde a norma, aquilo que é julgado normal numa determinada sociedade, foi considerada o padrão relativamente ao qual os atributos particulares de algumas populações foram classificados como psicopatologias, como défices genéticos, constitucionais, ou como défices culturais. Estas normas foram sendo construídas a partir de teorias e estudos onde a inclusão de elementos provenientes de culturas ou grupos diversos não foi tida em conta, ou onde estes elementos de diversidade foram estudados a partir de grelhas teóricas e de metodologias que haviam sido desenhadas de acordo com perspectivas (pre) dominantes no tempo e na sociedade em questão e que, frequentemente, serviram para reforçar essas conceções.

Mulheres, crianças, imigrantes, homossexuais, minorias étnicas, pessoas com doença mental, pessoas pobres, pessoas com deficiência, reclusos, sao alguns dos exemplos de grupos que foram alvo, ao longo da História da Psicologia, deste tipo de desrespeito pela diferença.

Por exemplo, durante muito tempo, diversos modelos e teorias psicológicas reforçaram a ideia de que as mulheres eram mais emocionais e menos racionais do que os homens, mais predispostas para a maternidade e menos para o trabalho fora do lar ou para a vida pública. Ao reforçarem esta visão patriarcal das diferenças de género, estes modelos operaram a manutenção social e a reprodução de visões sexistas e discriminatórias.

A pouco e pouco, as vozes críticas e persistentes têm vindo a fazer-se ouvir cada vez mais, e a preocupação com o valor da diferença no estudo e na prática da psicologia tem vindo a ganhar terreno. São hoje cada vez mais comuns os estudos e os textos científicos onde se procura inclui saber sobre populações diversas. Mas não hasta incluir a diversidade nos estudos.

É mesmo preciso que estes sejam sensíveis às populações que estudam, que evitem formas de “imperialismo cultural”, onde uma visão estranha a essa população lhe é imposta, onde os membros do grupo a ser estudado sejam olhados e avaliados tendo em conta apenas grelhas de comportamento e valores estranhos aos seus. A especificidade de cada grupo ou pessoa deve ser valorizada. Tal deve levar-nos a tentar olhar cada um tendo em conta as suas características próprias, as forças e competências que essas características lhe conferem. Mais ainda, uma apreciação mais completa dessas características tem de ser feita a partir de uma visão que compreenda as relações desse grupo ou pessoa com o seu contexto, que inclui também as relações que estabelecem com outros grupos, muitas vezes de dominação ou de opressão.

Para desenvolvermos as nossas capacidades e potencialidades enquanto seres humanos autónomos e livres, necessitamos de crescer e de viver em meios que nos permitam exercer e praticar essas capacidades de autonomia e liberdade; precisamos de nos sentir apoiados e desafiados, compreendidos e respeitados, estimulados nas nossas capacidades de aprender e de transformar, quer a nós mesmos, quer às relações e aos cotextos onde vivemos.

É por isso importante que todos nos tornemos mais atentos às diferenças, mais dispostos a escutá-las e a percebê-las para que se promova um mundo mais justo, mais integrador e mais rico; para que seja possível uma compreensão mais abrangente de nós e dos outros, dos problemas e soluções que os seres humanos encontram; para que sejamos capazes de apreciar de forma mais lúcida e mais crítica as possibilidades, desafios e responsabilidades que se nos apresentam: enfim, para que nos possamos desenvolver de forma mais completa, mais humana e mais digna. Isto é ainda importante que se faça relativamente a todos aqueles que, por razões históricas, culturais ou biológicas, se mantêm menos capazes de se fazer ouvir ou que foram e são silenciados, cujas possibilidades de exercício de autonomia foram coarctadas ou que foram tornados invisíveis e, de muitas maneiras diferentes, desconsiderados.