Sistemas de Classificação de Seres Vivos

Os mecanismos evolutivos atuando desde o aparecimento dos primeiros seres vivos até ao presente originaram a diversidade atual de formas vivas. A biodiversidade atual corresponderá apenas a uma ínfima fracção de todas as espécies que povoaram o planeta desde a sua origem. Estimativas recentes apontam para que as formas atuais correspondam a 1% do total de espécies que existiram.

Para além da questão da origem de tão grande diversidade, o ser humano sempre a tentou ordenar recorrendo à sua classificação. Classificar é agrupar em categorias coleções de objetos diferentes, de acordo com determinados critérios. Nesta perspectiva, a classificação biológica consiste na organização dos seres vivos em grupos de acordo com critérios baseados nas suas características.
A sistemática é a área do conhecimento biológico que se ocupa do estudo das relações evolutivas dos diferentes grupos de seres vivos ao longo do tempo bem como do seu agrupamento e classificação.

A sistemática tem como objectivo a criação de sistemas de classificação que não se limitem a agrupar os seres vivos atuais, mas que reflitam a evolução sofrida por esses grupos ao longo do tempo. A taxonomia, que frequentemente se confunde com a sistemática, é o ramo da Biologia que classifica os seres vivos. Podemos considerar, nesta perspectiva, que a sistemática engloba a taxonomia, indo para além dela, ao estudar a evolução e a história dos diferentes grupos de seres vivos.

Diversidade de critérios

As primeiras classificações feitas pelo Homem tinham um carácter prático, ajustando-se às necessidades específicas de quem as utilizava. Por exemplo, as plantas são ainda classificadas em comestíveis ou não comestíveis e os animais em domésticos ou selvagens. Estes sistemas de classificação práticos, usados em vários domínios, carecem, muitas vezes, de base científica (classificações empíricas), sendo meros instrumentos de sistematização utilitária.

Os sistemas de classificação racionais são mais objectivos, uma vez que utilizam caracterís-ticas morfológicas ou fisiológicas intrínsecas aos seres vivos. Representando uma outra forma de organizar o mundo vivo, foram propostos pela primeira vez por Aristóteles, na Grécia Antiga. Durante um períoáo que se estende desde a Grécia Antiga até ao século XVIII, e no qual se inclui o trabalho de. Lineu, as classificações racionais baseavam-se num reduzido número de características, sendo, por isso, designadas por sistemas de classificação artificiais (TABA).

Com o avanço do conhecimento científico e de novos métodos e instrumentos de observação, o conhecimento sobre os seres vivos aumentou exponencialmente, o que conduziu à utilização de um número crescente de características no processo de classificação. Este aumento teve reflexos na classificação, que passou a integrar um grande número de dados e a exprimir uma maior afinidade entre os seres — sistemas de classificação naturais. Estas classificações não consideram a evolução dos organismos nem o factor tempo que lhes está associado, sendo, por isso, designadas por classificações horizontais, devido ao seu carácter estático.

A expressão mais recente das classificações de natureza horizontal são as classificações fenéticas, baseadas num grande número de semelhanças ou diferenças entre os organismos. Apesar desta escola de classificação recorrer, actualmente, a meios informáticos capazes de processarem em simultâneo uma enorme quantidade de dados — taxonomia numérica —, os seus críticos argumentam que a semelhança morfológica não pode ser tomada como indicador de proximidade filogenética ou de afinidade evolutiva. De facto, as chaves dicotómicas resultantes deste tipo de análise não exprimem qualquer relação evolutiva entre os grupos considerados, mas antes um determinado grau de afinidade relativamente a um conjunto de caracteres considerados.

Reflectindo uma outra forma de encarar a classificação dos seres vivos, surgiram no período pós-darwiniano as classificações filogenéticas.

Nessa perspectiva, apoiada, sobretudo, em dados paleontológicos e de comparação anatómica, os seres vivos passaram a ser classificados não apenas de acordo com a sua afinidade estrutural e morfológica, mas também de acordo com a sua história evolutiva. O desenvolvimento da Citologia, da Bioquímica e da Genética, nomeadamente através da comparação de proteínas e sequências de DNA, tem contribuído fortemente para a identificação de ancestrais comuns, ajudando a definir sequências que esclarecem o percurso evolutivo dós grupos de seres vivos e as suas relações de parentesco. As árvores filogenéticas, típicas da taxonomia evolutiva clássica, traduzem, assim, afinidades evolutivas entre grupos relativamente aos quais se considera a existência de antepassados comuns. As classificações filogenéticas podem ser consideradas classificações verticais, uma vez que reflectem o carácter dinâmico da transformação dos organismos ao longo do tempo.

Taxonomia e nomenclatura

Apesar de mais evoluídos e diversificados, os sistemas de classificação actuais mantêm ainda alguns aspectos da estrutura proposta por Lineu no seu sistema de classificação. Nesse sistema. o primeiro com elevado grau de rigor e consistência científica, as categorias ou níveis taxonómicos ou taxa (plural de taxon) encontram-se dispostos de forma hierárquica, o que torna evidente o grau de relação entre eles.

A categoria básica deste sistema, entendida como a unidade de classificação biológica, é a espé­cie. Constitui a categoria taxonómica com menor capacidade de inclusão, mas mais uniforme, uma vez que integra organismos com maior número de características comuns De acordo com o  conceito biológico de espécie, os organismos que integram esta categoria taxonómica devem ser capazes de, potencialmente, originar entre si descendência fértil, o que confere a este taxon o estatuto de grupo natural. O reino é a categoria mais abrangente ou com maior amplitude, sendo, por isso, mais heterogénea. Entre estes dois extremos consideram-se o género, a família, a ordem, a classe e o filo (divisão nas plantas), em que um género agrupa espécies semelhantes, uma família engloba géneros semelhantes, etc. Assim, ao longo desta hierarquia (da espécie para o reino) vai aumentando o número de organismos incluídos em -cada nível, mas diminuindo o grau de parentesco entre eles. A necessidade de tomar mais rigorosa a classificação dentro de determinados níveis justificou a criação de categorias intermédias submetidas ao princípio hierárquico já referido. Essas categorias resultam da junção dos prefixos sub e super às categorias já existentes, consoante correspondam, respectivamente, a ,categorias imediatamente inferiores ou superiores à categoria considerada. Uma superclasse, por exemplo, corresponde a uma categoria imediatamente superior à classe, possuindo, portanto, uma maior capacidade de inclusão que a classe. Da mesma forma, o subfilo corresponde a um grupo menos abrangente que o filo e inferior a ele.

Regras de nomenclatura

Dá-se o nome de nomenclatura ao conjunto de regras utilizadas na designação dos taxa. Algumas das regras de nomenclatura actualmente utilizadas foram inicialmente propostas por Lineu. Uma das mais importantes, a nomenclatura binominal, acabou por substituir complica­das designações polinominais na designação da espécie. Cada espécie passou a ser designada por dois termos, por exemplo, Panthera leo (leão), assumindo cada um deles um significado definido. O primeiro indica o nome do género_ a que a espécie pertence, devendo ser iniciado por maiúscula. Este nome pode ser utilizado isoladamente, para designar o género. O segundo —restritivo ou epíteto específico — complementará sempre o primeiro, para identificar determinada espécie dentro desse género, devendo ser integralmente escrito em minúsculas. O nome da espécie, habitualmente impresso em itálico, deverá ser sublinhado quando manuscrito. O nome do autor e a data da classificação poderão estar associados ao nome da espécie, daí resultando uma classificação mais completa.

A designação do género e da espécie, bem como de outras categorias taxonómicas, é, por con­venção, expressa em latim. O latim, sendo uma língua morta, não sujeita a alterações de significado, garante a estabilidade e a universalidade desta nomenclatura, uma vez que substitui os nomes vulgares usados em diferentes línguas e regiões.

Os taxa hierarquicamente superiores ao género são designados por um só nome que poderá ser escrito em latim ou na língua do utilizador.