Aprendizagem e Plasticidade do Cérebro

As descobertas mais recentes vieram demonstrar que o cérebro é muito mais maleável do que até então se imaginava, modificando-se sob o efeito da experiência, das percepções, das ações, dos comportamentos. Isto significa que a relação que o ser humano estabelece como o meio produz modificações no sentido de uma adaptação cada vez mais eficaz.

Estas modificações ocorrem principalmente nos primeiros meses de vida, quando o córtex está a organizar-se e em crescimento acelerado. Contudo, este processo decorre ao longo da vida. Esta maleabilidade do cérebro, esta capacidade em se modificar designa-se por plasticidade, A plasticidade cerebral é, portanto, a capacidade do cérebro em se remodelar em função das experiências do sujeito, em reformular as suas conexões em função das necessidades e dos fatores do meio ambiente. As redes neuronais modificam-se em função das experiências vividas. É a plasticidade fisiológica que permite a aprendizagem ao longo de toda a vida.

Entre as várias experiências que poderíamos citar para demonstrar a plasticidade do cérebro, destacamos os estudos sobre cegos orientados pelo neurologista Álvaro Pascual-Leone, na década de 90. Com a sua equipa, este investigador analisou o efeito produzido no cérebro de cegos adultos que começaram a aprender Braille. Concluiu-se que a região do córtex somatossensorial lateral aumenta muito de volume como reação aos movimentos do dado que lê as letras em relevo. Esta constatação veio provar a neuro-adaptabilidade do cérebro. Contudo, as conclusões ainda foram mais longe: as informações provenientes do dedo que lê Braille ativavam também as partes do córtex visual. Deduziram que nos cegos adultos as novas conexões neuronais ocupam as áreas disponíveis não utilizadas, neste caso, a área não ocupada pela ausência de informações visuais.

Outros dados foram trazidos pelo estudo de crianças selvagens. Uma investigadora na área da Linguística, Susan Curtis acompanhou Gennie, uma criança que esteve sequestrada pelo pai durante 13 anos e que não. Através de testes neurológicos descobre que a área esquerda do cérebro, que controla a linguagem, estava menos desenvolvida. A ausência de estimulação para a aquisição da linguagem no momento adequado impedira o cérebro de desenvolver as estruturas próprias. Submetida a um treino específico, Gennie desenvolveu muito lentamente a linguagem limitando-se a usar formas elementares de comunicação verbal.

Para além destes exemplos, há outras manifestações da plasticidade cerebral. Sabe-se que a forma como o cérebro responde quando determinadas áreas sofrem lesões que comprometem as suas capacidades: outros neurónios, geralmente situados nas zonas vizinhas, assumam as funções das áreas danificadas. Este processo, frequente sobretudo em crianças e jovens, é mais uma prova que mostra que o cérebro é plástico. Como já vimos, a própria ideia de “localização cerebral” sofreu alterações: abandonou-se a conceção de que os comportamentos os humanos, do mais simples ao mais complexo, se encontram rigorosamente localizados em regiões determinadas do córtex cerebral.